sábado, 27 de novembro de 2010

Após Os "60", Uma Certeza: A Vida É Bela!

Por Sandra Gomes
Confraternização, alegria, amizade

Eles vêm de vários 'cantos' da cidade, mas principalmente, do bairro de Santa Tereza, tradicional berço da seresta mineira. São homens e mulheres que já passaram dos 60, mas com um espírito e disposição tão jovens, que só de vê-los e escutá-los impressionam. O segredo? A resposta é bem simples: A vontade de viver e sentir que 'este lado' da vida só está começando. A grande responsável por isto é a música. Através dela, eles seguem em seus Encontros & Mais Encontros. O 'QG' é a casa de todos, em cada encontro, uma morada.


Grupo Rádio Velho - "Tô Nem Ligando"

Eles perderam as contas de quantas vezes já se reuniram para simplesmente estarem uns com os outros - e muito mais próximos de si mesmos - ao optar pelo caminho que leva a aproveitar cada instante da vida.

E já perceberam: depois de uma certa idade, mesmo que cheia de problemas acumulados durante os anos, a cabeça até funciona bem. Mas parece ter um enorme descompasso com o resto do corpo, que não obedece tanto aos estímulos da mente. Esta, muito mais sábia e experiente - se comparada à época em que era 'sustentada' por um corpo ágil de 25 ou 30 anos. Sem falar do incômodo das dores que surgem e começam a ficar frequentes, tornando-se
um obstáculo a cada dia.

Em alguns casos, só isso tudo já seria o suficiente para desanimar qualquer saidinha de casa, mesmo que fosse pra se distrair. Deixar a velha e confortável poltrona em frente à televisão para ir ao cinema ou ao teatro - ainda que gratuito na pracinha do bairro, nem pensar!

O fato é que aprontar-se e sair como nos bons e velhos tempos tornou-se um dificultador para quem já entrou nos 'enta'. Pior ainda em horários 'que parecem não lhes pertencer mais'. Arriscar-se assim, seria no máximo, para dar uma ida à farmácia da esquina...

Ao contrário do que se diz por aí - e, ao menos nesta história -, os tempos vividos mostraram que não é preciso milagre, menos idade ou a famosa desculpa da falta de dinheiro, para viver mais e melhor. Você deve estar perguntando: Como?

A receita não é cara, por outro lado, não tem preço que pague e contém preciosos ingredientes, como o violão do Zé Meira (o Juca), o toque do pandeiro (que o Joaquim aprendeu treinando ali mesmo), o barulho do chocalho (instrumento confeccionado pelo próprio Juca e muito bem ritmado pela namorada, Elisa) incrementando o som e, para dar 'gosto', um potinho de metal contendo grãos de arroz. É assim, que a Leda ajuda na percurssão. Ah, e o fermento necessário para essa mistura crescer, ganhar forma, cor, tom e 'sabor' é abrir a boca e cantar. Nessa 'brincadeira', dificilmente alguém fica parado. Como num toque de mágica, o esqueleto começa a se 'inquietar'. Taí uma ótima 'ginástica' para não deixar
o corpo, a voz e, principalmente o espírito envelhecerem.

'Soltar' as cordas vocais e exercitar os pulmões é tarefa do 'puxador' - o fotógrafo José Goes - que o Juca (ou Zé Meira) chama o tempo todo de "Xará". Durante muitos anos, Goes foi o responsável por inúmeros registros de JK. Tempo que faz questão de agora 'registrar' através da fala - cheia de boas e curiosas lembranças. José Goes traz consigo enorme orgulho de ter sido o fotógrafo do presidente 'bossa nova', um outro amante da serenata e principalmente da música 'Peixe Vivo' - cantada inclusive nesse encontro de jovens senhores e senhoras. Bem, como eu disse, o Zé Goes 'puxa' e os demais fazem o 'backing vocal'. Pronto. Está formado o grupo 'Rádio Velho'.

Tem a Soninha e o Toninho, a Thelma, as duas Nely, a Leda e a Maria Augusta, a Veroca, Nazaré, o Francisco, o Zé Geraldo, o Anjo, a Berenice e o Valter, a Vilma e Vânia . E me perdoem se deixei de citar mais alguém nesta lista que só cresce. O dançarino é o Milton e nenhuma 'moça' fica sentada por muito tempo. Nesta hora, 'Gracinha' (a mulher dele) 'empresta' o marido. É desta forma que o Rádio Velho 'engana' o tempo e dá exemplo de vitalidade. Incrível o resultado.

Eles e elas são solteiros, casados há 42 anos, outros, após mais de 40 de união, resolveram descasar, tem namorados ou se preferirem, companheiros... Mas o que importa mesmo é quando o telefone toca e do outro lado da linha alguém convida:
-"Na sexta vamos nos encontrar na casa da Gracinha, você vem?"
A resposta chega num instante:
-"Confirmado, eu vou!".
Mas o endereço poderia ter sido a casa do Zé Meira,
também em Santa Tereza ou a da Nazaré, no Sagrada Família - bairro vizinho ao primeiro.

Mesmo debaixo de um temporal (que seria uma boa desculpa para não tirar muita gente de qualquer idade de dentro de suas casas), eles se encontraram nesse dia. Chegaram de ônibus, de carona, de taxi ou dirigindo seus próprios carros e levaram consigo, uma espécie de 'porção mágica': a animação.

Após aquele telefonema no meio da semana, o único trabalho foi ter que esperar o dia e a hora para se aprontar e aproveitar a noite da última sexta-feira, 26 de novembro (que tive a sorte de presenciar 'ao vivo e a cores'). Comprovado, eles festejaram a vida cantando, dançando, batendo palmas, e ainda contando e ouvindo 'casos' e 'causos'.

"Meninos eu vi". E estou aqui neste blog para contar e mostrar que u
sar o corpo e a alma para 'rejuvenescer', é sinal de sabedoria e razão. Coisas essenciais que a vida ensinou-lhes muito bem. A prova maior do sucesso dessa receita é a minha própria mãe. Depois de entrar para o grupo, mais parece ter encontrado o elixir da 'sapequice'. Difícil agora, é acompanhá-la ou mantê-la em casa. Haja disposição!

Além de cantar e dançar tem para quem aprecie, o famoso coquetel feito de run claro e Coca-Cola. Pois bem, degustando a 'centenária' Cuba Livre, a festa fica ainda melhor para a Soninha. No final da noite - que na verdade já é o começo de uma nova manhã de sábado -, uma 'surpresinha' para o paladar: um delicioso prato feito pela dona da casa. Dessa vez foi uma magnífica massa feita com ervas. Um verdadeiro must, cuja receita não foi divulgada pela 'chef'...

'Grupo de estudo'

Os encontros desta turma servem também para discutir a própria cultura. E o assunto que surgiu, foi a origem da serenata. Pergunta feita pela jornalista do Hoje Em Dia, Elemara Duarte, que estava presente fazendo uma reportagem com o grupo. A resposta foi dada por Goes, "serenata vem do sereno: se-re-na-ta". Explica enfatizando cada sílaba, o fotógrafo e porta voz do "Rádio Velho". No mesmo instante, surge a palavra 'sarau' e imediatamente, alguém responde: "sarau 'rolava' muito às tardes, depois de cinco horas!". Com avidez, Goes retruca: "Esse é dentro de casa!", lembrando mais uma vez que a "serenata é lá fora, no sereno". Todos concordam.

Muito bem 'familiarizados' à tradição popular mais antiga de cantoria das cidades, eles rebatizam a serenata - transformando-a em seresta de quintal ou de garagem -, ajudando a reforçar e eternizar a história de um bairro como o de Santa Tereza, desde sempre marcado pela boemia.

Entre uma música e outra, José Goes faz questão de dizer: "cada um com um instrumento, cantando e tocando... Isso faz parte de uma terapia de saúde fantástica. As pessoas não tem alzheimer, não tem nada...", se referindo ao bem estar que a música proporciona.

Definitivamente, essa turma esperta descobriu que a música traz inúmeros benefícios, entre eles, a sociabilidade - difícil de cada dia - e a diversão.

E foi assim que aprendi, observando pessoas muito mais 'vividas' do que eu, a esbanjar alegria, conhecimento, cultura e a encenar o melhor 'balé' do mundo, fazendo da garagem de casa, um verdadeiro salão de dança!


Imagens: Sandra Gomes
Fotos: Sandra Gomes e Arnaldo Duarte






Vai uma catira aí?




A música é uma terapia, "prolonga a vida das pessoas" (José Goes)



Usar o corpo para 'rejuvenescer' é sinal de sabedoria. Isso a vida também ensinou a eles. E é aqui que eles encenam o melhor 'balé' do mundo!



"Serenata vem do sereno, se-re-na-ta" (José Goes)



Contam e casos e causos... História viva!



Cantar e bater palmas - A arte de ser saudável e feliz!



Uma adaptação da Folia de Reis, o Cálix Bento



Os anfitriões da noite, 'Gracinha' e Milton. Casados há 42 anos

(foto: Arnaldo Duarte)

Nas noites de Santa Tereza, pelo menos uma garagem é 'tomada' pela seresta

2 comentários:

  1. SANDRA, preciso antes falar:
    entrei na minha caixa postal determinado a reclamar falta de msg's pra mim...
    Com o acesso ao link do Encontros & + Encontros, preciso - já devia - dizer: você está perdoada, Sandra!
    Não só pelo tema, pela vida que jorra em cada sorriso, cantiga, olhares, movimentos e alegria desses jovens veteranos atores da obra divina ... o ser humano.
    Mas, precisei até de um parágrafo!, pelo seu texto primoroso em sulcar sentimentos e sensações na alma de quem o lê ... Sem falar que és uma equipe inteira: repórter, cinegrafista, fotógrafa ( deve ter tido um making off ), redatora e editora!
    PARABÉNS, a você e aos protagonistas dessa saga existencial que sua mãe, Nely, soube encontrar.
    Beijos do velho amigo jornalista,
    Roberto Braga

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  2. Roberto,

    Obrigada pelo carinho. Mas é difícil não se deixar sensibilizar com a beleza - que tive a sorte de presenciar nessas pessoas... Sim, são elas as responsáveis por tudo o que escrevi. Se eu chegar lá (espero que chegue - e bem), quero ser assim: experiente, saudável e feliz!

    Beijo grande!
    Sandra Gomes

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